Mães ambulantes cobram pontos de apoio para crianças no carnaval
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Espaço da prefeitura funciona apenas durante os desfiles à noite e trabalhadoras pedem ampliação do atendimento
Por Isabela Vieira – Agência BrasilRio de Janeiro – 17/02/2026
No calor intenso do carnaval de Rio de Janeiro, ter algo gelado para beber durante um bloco pode ser um alívio para os foliões. Por trás desse serviço estão milhares de mulheres ambulantes que enfrentam longas jornadas sob o sol, muitas vezes acompanhadas dos próprios filhos.
Sem escolas abertas durante o feriado e sem rede de apoio, muitas mães levam as crianças para o trabalho. É o caso de Taís Aparecida Epifânio Lopes, de 34 anos, moradora da favela do Arará, na Zona Norte. Ela trabalha nos blocos da Zona Sul e leva a filha de 4 anos.
“Carnaval é quando a gente consegue ganhar mais dinheiro. Se eu não fizer isso, a gente não come, não bebe. E eu não posso deixá-la sozinha”, afirma.
No centro da cidade, Lílian Conceição Santos, também de 34 anos, trabalha com três filhos e sobrinhos, entre 2 e 14 anos, dentro da barraca onde vende biscoitos, balas e bebidas.
“O carnaval ajuda demais nas contas, não posso deixar de vir”, diz. Segundo ela, as condições são precárias: “O banheiro que a gente usa é o bueiro, toma banho com água da polícia e comida é na panela elétrica”.
Espaço noturno é considerado avanço
O carnaval deve movimentar R$ 5,8 bilhões na economia da cidade e representa o maior faturamento do ano para muitos ambulantes. Diante dessa realidade, o Movimento de Mulheres Ambulantes Elas por Elas Providência articulou, junto ao Tribunal Regional do Trabalho (TRT), à 1ª Vara da Infância e da Juventude e à prefeitura, a criação de um espaço noturno de acolhimento para crianças.
O centro funciona das 18h às 6h, durante as noites de desfile, e atende cerca de 20 crianças por noite. No local, meninos e meninas de 4 a 12 anos participam de atividades, recebem alimentação, tomam banho e dormem enquanto os responsáveis trabalham.
Taís deixou a filha no espaço no primeiro dia de funcionamento e relata alívio. “Ela brincou, viu televisão, tinha cama. Coisas que na rua a gente não tem como dar.”
A principal reivindicação agora é ampliar o horário para atender também quem trabalha durante o dia.
Distância dificulta acesso
Luna Cristina Vitória, de 26 anos, que vende churrasquinho próximo ao Sambódromo da Marquês de Sapucaí, também utilizou o serviço para os filhos de 5 e 9 anos.
“Eles dão todo o suporte lá. Jantam, tomam banho, dormem”, conta.
Já Lílian, que trabalha no Largo da Carioca, afirma que a distância inviabiliza o uso. “Se tivesse aqui perto, eu botava. Senão, é só telefone (tela)”, lamenta.
Invisibilidade e falta de proteção
Para Caroline Alves da Silva, uma das lideranças do movimento, as ambulantes são parte essencial da economia do carnaval, mas continuam invisibilizadas.
“A grande maioria são mulheres negras, mães solo, que dormem embaixo de marquises. A gente carrega cerveja, carrinho pesado debaixo do sol, mas somos invisíveis”, afirma.
O movimento cobra mais diálogo com o poder público, instalação de pontos de apoio próximos aos blocos e fornecimento de equipamentos básicos de proteção, como guarda-sol, chapéu e blusas com proteção UV.
Ações da prefeitura
A Secretaria Municipal de Assistência Social informou que realiza ações permanentes de prevenção ao trabalho infantil e destacou o espaço de convivência próximo à Sapucaí.
Além disso, as ambulantes passaram a ter acesso ao Centro do Catador, onde podem descansar, se alimentar, tomar banho e pernoitar. A iniciativa conta com apoio da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
A deputada estadual Dani Monteiro, presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Alerj, afirmou que garantir água, cuidado e espaço digno é reconhecer direitos humanos como renda, saúde e respeito.
A prefeitura não comentou as críticas sobre a ampliação do horário do espaço infantil nem sobre o fornecimento de equipamentos de proteção.
Credenciamento limitado
Em 2026, o município limitou o credenciamento a 15 mil ambulantes, embora cerca de 50 mil tenham se cadastrado. Segundo o movimento, esse é o número estimado de trabalhadores atuando nas ruas durante o carnaval.
Enquanto garantem parte essencial da festa, mães ambulantes seguem equilibrando trabalho, cuidado e sobrevivência — e cobram do poder público condições mais dignas para exercer seu direito de trabalhar e proteger seus filhos.
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