Jornada de Carolina Maria de Jesus será contada pela Unidos da Tijuca no Carnaval de 2026
- FORTE POR SER MULHER

- 9 de fev.
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A trajetória de uma das maiores escritoras brasileiras ganhará a avenida em 2026. A Unidos da Tijuca levará para a Marquês de Sapucaí a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus, mulher negra, escritora, compositora, cantora e símbolo de resistência, em um enredo que promete emocionar e provocar reflexão sobre apagamentos históricos e a força das mulheres.
O desfile será aberto pela figura da menina Bitita, apelido dado à escritora ainda na infância pelo avô Benedito. Na língua changana (ou xichangana), de Moçambique, Bitita significa panela de barro de cor ocre ou preta — símbolo de resistência, ancestralidade e permanência. A partir dela, diferentes “Carolinas” atravessarão a avenida para contar, de forma cronológica, a história da autora: a doméstica, a catadora, a mãe, a escritora, a mulher marginalizada, a artista e, agora, a Carolina do carnaval.
“O enredo é essencialmente biográfico. A história se desenvolve cronologicamente. O que a Tijuca faz é colocar a Carolina no palco”, explicou o carnavalesco Edson Pereira, em entrevista à Agência Brasil.
Para ele, apesar da grandiosidade de sua obra, Carolina Maria de Jesus ainda é pouco conhecida pelo grande público. “A gente vive um momento em que precisa acender a luz sobre aqueles que foram apagados pela história. A Carolina representa muito bem a força da mulher”, afirmou.
Apagamento, resistência e empoderamento
Nascida em 14 de março de 1914, em Sacramento, Minas Gerais, Carolina cresceu ouvindo histórias do avô alforriado e foi profundamente influenciada pelas mulheres da família. Sonhando com uma vida melhor, mudou-se para São Paulo, onde passou a viver na favela do Canindé, enfrentando racismo, pobreza e exclusão social.
Foi nesse contexto que começou a registrar em diários a dura realidade da favela, os preconceitos, a fome, a violência e os feminicídios que testemunhava. Esses relatos deram origem ao livro “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada”, publicado em 1960, que vendeu mais de 10 mil exemplares na primeira semana e foi traduzido para pelo menos 14 idiomas, chegando a mais de 40 países.
A terceira alegoria da Unidos da Tijuca será dedicada à obra e será construída com papelão e materiais alternativos, em referência ao período em que Carolina trabalhava como catadora para sustentar os filhos.
“A história da Carolina nos fascina pelo empoderamento. Ela é mulher, preta, resistência. Infelizmente, muitos dos problemas que ela denunciava ainda são realidade hoje”, pontuou Edson Pereira.
Cuidado com a saúde mental nos bastidores
A construção do desfile está sendo conduzida pela dupla de diretores de carnaval Fernando Costa e Elisa Fernandes, que estreia no Grupo Especial após anos de atuação em outras escolas. Elisa implementou uma iniciativa inédita nos bastidores da Tijuca: uma equipe de psicólogos para cuidar da saúde mental dos profissionais envolvidos no carnaval.
“Alguns segmentos sofrem uma pressão muito grande. É preciso parar, olhar para si e cuidar”, explicou Elisa, destacando que o serviço atende passistas, casal de mestre-sala e porta-bandeira, equipes de ateliê e o setor administrativo.
A força da mulher negra
Mulher negra, Elisa Fernandes celebra a oportunidade de, logo em seu primeiro ano como diretora de carnaval, trabalhar em um enredo que homenageia Carolina Maria de Jesus.
“É um presente difícil de explicar. Carolina inspira outras mulheres a serem o que quiserem. Ela não era só escritora, também era cantora e compositora — assim como eu”, afirmou.
Para Elisa, Carolina representa a polivalência imposta e construída pelas mulheres, especialmente as negras. “Nós somos sementes da Carolina. Estamos apenas continuando o trabalho dela e tendo a oportunidade de homenagear uma mulher que já deveria ter sido celebrada há muito tempo”, concluiu.
O Forte por Ser Mulher celebra a escolha da Unidos da Tijuca e reforça a importância de contar, nos maiores palcos culturais do país, histórias de mulheres que resistiram, escreveram, denunciaram injustiças e abriram caminhos para tantas outras. Carolina Maria de Jesus vive — na literatura, na memória e, agora, na avenida.
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