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Política por trás das câmeras: pressão, machismo e o impacto na saúde mental das mulheres

Ocupar um cargo público, para uma mulher, vai muito além de apresentar projetos ou participar de votações. Nos bastidores, o desafio é equilibrar uma jornada que envolve a pressão do mandato, a gestão da vida pessoal e o enfrentamento de barreiras invisíveis. Se na frente das câmeras o discurso é de firmeza, nos bastidores o desafio é manter a saúde mental e a rede de apoio em um ambiente desenhado por e para homens.

A urgência dessa discussão é sustentada por dados que revelam a hostilidade do ambiente político. De acordo com a ONU Mulheres e o TSE, 80% das mulheres em cargos eletivos no Brasil afirmam já ter sofrido algum tipo de violência psicológica ou virtual no exercício do cargo, enquanto 45% das parlamentares já foram ameaçadas ou humilhadas em plenário por colegas homens.

Em Salvador, onde apenas 9 das 43 cadeiras da Câmara Municipal são ocupadas por mulheres, a vereadora Ireuda Silva (Republicanos), que preside a Comissão da Mulher na Câmara Municipal, avalia, em entrevista ao Portal M!, o “pós-eleição” e a carga mental que o poder exige.

“O pós-eleição é desafiador. A pressão é constante, o julgamento é diário e, para as mulheres, ele costuma ser mais rigoroso. Somos avaliadas não apenas pelo trabalho, mas pela aparência, pelo tom de voz, pela postura. Conciliar mandato, família e saúde mental exige disciplina, rede de apoio e fé. Eu aprendi que não é possível dar conta de tudo sozinha. É preciso estabelecer limites e cuidar da mente para continuar lutando com equilíbrio”, revela a vereadora.

Ireuda destaca que a saúde mental é frequentemente negligenciada no debate público, mas é o que sustenta a permanência da mulher na política. Segundo ela, o ambiente parlamentar testa o tempo todo o equilíbrio emocional das mandatárias, que precisam performar em alto nível enquanto lidam com críticas que, muitas vezes, não tocam em suas pautas, mas em suas vidas privadas.

O machismo institucional e o silenciamento

Sobre o machismo enfrentado no cotidiano parlamentar, a vereadora afirma que já sentiu tentativas de silenciamento de forma direta e indireta.

“O machismo institucional muitas vezes não é explícito; ele se manifesta em interrupções constantes, na tentativa de minimizar posicionamentos ou na exclusão de decisões importantes. Minha resposta é preparo, firmeza e resultado. Não me intimido. Ocupar esse espaço já é um ato político, e permanecer nele com competência é uma resposta contundente a qualquer tentativa de desqualificação”, afirma.

Para ela, a sobrevivência política passa por uma rede de proteção. Pensando nas mulheres que miram o ciclo eleitoral de 2026, Ireuda enfatiza que a estratégia deve ser coletiva.

“A primeira estratégia é preparação técnica e emocional. A segunda é construir rede: ninguém faz política sozinha. A terceira é ter clareza de propósito, porque haverá obstáculos. Política não é espaço de fragilidade, mas também não precisa ser espaço de endurecimento da alma. Precisamos entrar para transformar, não para nos moldar a estruturas injustas”.

A “guerra de braço” técnica em Brasília

Essa disputa por legitimidade também é sentida fora do parlamento, na articulação técnica de leis federais. Daniela Lopez, responsável pela redação da lei que regulamentou a profissão de esteticista no Brasil, relata ao Portal M! que enfrentar uma bancada majoritariamente masculina exige resiliência.

“Nós iniciamos o processo em Brasília no ano de 2018. A maior dificuldade que nós tivemos é justamente porque nós temos hoje uma bancada, tanto no legislativo quanto no executivo, majoritariamente masculina. Então, é uma guerra de braço muito grande”, explica Daniela.

Ela detalha que o enfrentamento político para discutir demandas de categorias majoritariamente femininas é mais árduo.

“O enfrentamento acaba se tornando muito maior. Os maiores desafios que nós tivemos até agora foi conseguir fazer com que a bancada do Legislativo e do Executivo entendesse a necessidade da regulamentação da profissão. As mulheres precisam estar ocupando os cargos de autoridade, de autonomia, e a gente nota claramente no dia a dia que ainda falta muito esse avanço das mulheres ocupando grandes posições”, pontua ela, que acredita que 2026 será um marco de ruptura.

Daniela destaca a força das mulheres e afirma que somente unidas elas podem avançar na política. “Nós somos verdadeiras revolucionárias buscando uma evolução humana de todas as partes, homem e mulher, para que tenha realmente o conhecimento e o respeito pela causa das mulheres. Eu acredito que 2026 nós vamos ter a maior bancada feminina que esse país já viu no Congresso Nacional”, projeta.

O diagnóstico do duplo padrão e a lei

Gabriela Sabino, autora da obra “Política, substantivo feminino”, observa que o julgamento social é desproporcional.

“Infelizmente, as mulheres são vítimas de um duplo padrão na política: se somos firmes e assertivas, somos rotuladas como agressivas ou mandonas; se somos compassivas e empáticas, somos vistas como fracas ou excessivamente emocionais. E assim, cada vez mais perdemos nosso lugar em um espaço que também é feminino”, analisa.

Gabriela reforça que a Lei 14.192/21, que coíbe a violência política de gênero, registrou um aumento de 110% nas denúncias, mas a fiscalização ainda falha.

“A própria palavra política é um substantivo feminino. Se a política é feminina, por que não temos a presença de mulheres? Devemos fazer com que a violência política de gênero continue sendo uma prioridade nas discussões sobre democracia e direitos humanos no Brasil”, afirma.

Lídice da Mata: presença feminina amplia o debate e enfrenta estruturas históricas

A ampliação da presença feminina nos espaços de poder também é apontada como um fator decisivo para diversificar agendas e ampliar o debate político. Para a deputada federal pela Bahia, Lídice da Mata (PSB), a participação das mulheres no Parlamento contribui para fortalecer a representatividade e garantir que pautas historicamente invisibilizadas avancem nas instituições.

Segundo a parlamentar, a dinâmica de atuação política varia conforme o cargo exercido, mas em todas as esferas — municipal, estadual ou federal — as mulheres precisam disputar espaço dentro das estruturas partidárias e parlamentares.

“Na Câmara dos Deputados, na Assembleia Legislativa ou no parlamento municipal, todos os espaços são proporcionais ao tamanho e à representatividade dos partidos. Dentro disso, cada mulher precisa ocupar o espaço do seu partido e lutar para que ele seja assegurado”, afirma.

Lídice destaca que, ao longo dos últimos anos, houve avanços institucionais que ampliaram a participação feminina nas decisões do Legislativo, como a criação de instâncias de articulação entre parlamentares mulheres.

“Hoje mais do que nunca estamos constituindo espaços de representação das mulheres. Temos coordenação da bancada feminina e presença no Colégio de Líderes para defender projetos elaborados por mulheres ou de interesse das mulheres”, explica Lídice.

Para a deputada, no entanto, a atuação parlamentar feminina não deve se restringir a pautas consideradas tradicionalmente associadas às mulheres.

“As mulheres, como parlamentares, têm deveres iguais aos dos homens dentro do Parlamento. Precisamos ter protagonismo em todas as áreas, seja economia, segurança pública, saúde, educação, assistência social, trabalho, previdência ou direitos humanos”, pontua.

Desafios estruturais e exposição pública

Lídice também observa que os desafios enfrentados por mulheres na política refletem desigualdades presentes na própria sociedade. Segundo ela, a cobrança social sobre mulheres que ocupam cargos públicos costuma ser maior do que aquela direcionada aos homens.

“É um desafio para todas as mulheres, não apenas na política, mas na vida profissional em geral. Uma médica, uma juíza, uma advogada, uma empresária, todas enfrentam cobranças como se a família fosse responsabilidade exclusiva delas”, afirma Lídice da Mata.

No caso das mulheres que ocupam mandatos eletivos, essa pressão tende a ser ampliada pela exposição pública do cargo e pelo ambiente de julgamento permanente, especialmente nas redes sociais.

“As mulheres parlamentares enfrentam isso em uma dimensão ainda maior, porque têm uma vida muito exposta ao crivo e à opinião dos eleitores. Com as redes sociais, proteger a vida familiar e preservar a esfera privada se torna cada vez mais difícil”, observa.

Para a deputada, o ambiente político ainda reproduz estruturas historicamente masculinas, o que torna o caminho das mulheres no poder mais desafiador.

“Se há discriminação na sociedade, ela se reflete no Parlamento. Por mais destacada que seja a mulher, ela enfrentará disputas e dificuldades inerentes a um poder que foi majoritariamente criado por homens e para os homens”, conclui.

Desafios invisíveis: a rotina emocional das mulheres na política

Nos debates públicos, a atuação parlamentar costuma ser vista principalmente pelo que acontece no plenário. No entanto, os bastidores da política envolvem uma rotina intensa, marcada por pressões, responsabilidades e desafios emocionais que nem sempre são visíveis para a população.

Para a vereadora de Salvador, Aladilce Souza (PCdoB), a experiência das mulheres na política costuma ser ainda mais desafiadora, especialmente quando precisam conciliar as exigências do mandato com responsabilidades familiares e pessoais.

Desafios emocionais e equilíbrio entre vida pública e privada

Segundo a parlamentar, a rotina emocional de uma mulher que ocupa um cargo político exige constante capacidade de adaptação e organização para lidar com diferentes responsabilidades ao mesmo tempo.

“Ainda é um desafio para as mulheres, com certeza. Para mim também. A minha vida toda, desde que comecei no parlamento, no início, meu filho pequeno ainda. Eu tinha necessidade de cuidar do filho, mãe solo, cuidar do filho, cuidar da casa e da conta do mandato. Então, sempre foi muito difícil, mas a vontade de permanecer nessa esfera pública, de permanecer nesse lugar de poder, nesse espaço de poder, me fez encontrar um equilíbrio e lidar, sem descuidar das minhas responsabilidades”, relata.

Ela afirma que, ao longo da trajetória política, encontrou formas de equilibrar a vida pública com os compromissos familiares, algo que considera essencial para manter a estabilidade emocional necessária ao exercício do mandato.

“Eu sempre assumi com muita satisfação cuidar do meu filho, atualmente de cuidar da minha neta também, que eu faço com a maior alegria, e de equilibrar isso com a vida política. A gente precisa saber administrar todas essas questões”, afirma.

Para a vereadora, manter uma vida pessoal ativa e saudável também contribui para melhorar o desempenho na vida pública.

“Afinal de contas, a vida pessoal, a vida particular, nos faz bem, nos ajuda a manter o equilíbrio para que a gente possa, na vida pública, ter uma qualidade melhor, ter um equilíbrio emocional melhor”, completa.

Ao falar sobre sua trajetória, a parlamentar reforça que, apesar das dificuldades, a permanência das mulheres na política é fundamental para ampliar a diversidade de perspectivas nos espaços de poder e fortalecer o debate democrático.

 
 
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