"Enterrei minha filha no Dia das Mães": família relata dor após feminicídio em Porto Alegre
- FORTE POR SER MULHER

- 12 de mai.
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Quase na esquina do acesso D com a Rua Mutualidade, no bairro Santa Tereza, em Porto Alegre, a parede da casa amanheceu repleta de balões brancos, frases e cartazes. A manifestação estampava a dor e a revolta de amigos e familiares diante do que aconteceu no local.
Naquele imóvel, por volta das 10h30min de sábado (9), a cuidadora de idosos Isabella Borges da Rosa Pacheco, 22 anos, foi assassinada. Conforme a polícia, o suposto autor do disparo de arma de fogo que matou a jovem é Nicollas Ronald Moraes dos Santos, 23 anos.
Ele era companheiro da vítima e foi preso em flagrante horas depois. Isabela figura o 33º feminicídio do Rio Grande do Sul, somente neste ano. Não tive coragem de vir aqui no sábado, mas enterrei minha filha no Dia das Mães, e meu neto vai crescer sem ela — desabafa a mãe da jovem, Siomar Borges da Rosa, 49 anos.
Isabella tinha um bebê de um ano e quatro meses, que, segundo parentes, estava na casa da sogra no momento do crime. Foi ela quem teria socorrido a nora após a movimentação da vizinhança ao ouvir o barulho do tiro. A mulher segue com o neto, mas a família materna informou que pedirá a guarda do menino.
A jovem foi baleada na região do rosto, e o projétil atingiu o cérebro. Ela chegou a receber atendimento médico, mas não resistiu. O corpo de Isabella foi sepultado no domingo (10), no Cemitério Santa Casa, em Porto Alegre. Medidas protetivas
O relacionamento da vítima com o agressor começou na adolescência. Valéria Borges Pacheco, 21 anos, lembra que o suspeito foi o primeiro namorado da irmã Isabella, ainda na época da escola. A relação sempre foi marcada por brigas, ciúmes, idas e vindas. Há cerca de três anos, a jovem chegou a ir embora para Salvador (BA) com ele, mas voltou um mês antes de ganhar o bebê.
— Que tipo de amor é esse? Ela parecia cega, apaixonada, e ele sempre possessivo. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém. A gente sabe que minha irmã foi mais uma que achava que só um tapa não iria acabar no que ele fez com ela — diz Valéria.
Tanto Valéria quanto Siomar estavam afastadas de Isabella, principalmente por não concordarem com o namoro.
Isso porque outros episódios de agressão seriam frequentes, segundo os relatos da família. Jovem tinha medida protetiva de urgência (MPU), mas acabou sendo persuadida pelo companheiro a pedir a retirada da proteção.
A delegada Thaís Dias Dequech, titular da 1.ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), informou, porém, que a MPU estava em vigor. Isso porque o juiz determinou que, antes da análise do pedido de revogação, Isabella deveria passar por acompanhamento com uma equipe multidisciplinar.
Assim como a Isabella, a mãe tinha medida protetiva contra o genro.
— Um dia ele me agrediu na rua e quebrou meu dedo. Ele também já tinha batido na minha filha, mas manipulava-a. Brigavam o tempo todo e não tinha conselho que adiantasse — conta Siomar.
Zero Hora busca a defesa do suspeito. O espaço segue aberto para manifestação.
Crime foi cometido após briga. A jovem morava com o filho em uma casa doada pelo pai dela, Valdeci Jorge Pacheco, 62 anos. O companheiro vivia com Isabella no imóvel, mas, a cada briga, acabava saindo e voltando tempo depois.
No dia que antecedeu o feminicídio, Isabella recebeu a visita do pai. Ele sentiu uma tontura e pediu para descansar na casa da filha.
Eram muito próximos. Valdeci conta que, nos últimos meses, ganhou muita atenção de Isabella. Diabético, necessitava de cuidados especiais. Todas as manhãs, ela ia até a residência do pai e levava o neto.
Horas antes de sair para passear na sexta-feira (8), Isabella parecia feliz. Ela e o companheiro deixariam o bebê com a avó paterna e iriam até um autódromo, no município de Viamão. Contudo, uma pequena discussão fez com que Valdeci fosse embora mais cedo.
— Meu netinho estava na cama brincando comigo, quando começaram a discutir. Não era nada demais, e fui embora. De manhã, recebi a notícia e não queria acreditar. Ele tinha matado a minha filha — relata o pai da jovem.
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